IA da Di2win multiplica por 16 os pedidos de ressarcimento da Saúde em Pernambuco
IA da Di2win multiplica por 16 os pedidos de ressarcimento da Saúde em Pernambuco
Tecnologia

IA da Di2win multiplica por 16 os pedidos de ressarcimento da Saúde em Pernambuco

Ferramenta batizada de AIRA, criada por empresa do Porto Digital, ajuda o estado a organizar processos e projeta recuperar cerca de R$ 780 milhões junto à União.

Quem acompanha a rotina do Sistema Único de Saúde já deve ter se perguntado como um estado consegue reaver, junto ao governo federal, valores gastos com tratamentos determinados pela Justiça. Em Pernambuco, parte dessa resposta passou a vir da inteligência artificial. Uma ferramenta batizada de Agente Inteligente de Ressarcimento Administrativo, ou AIRA, elevou de 276 para 4.506 o número mensal de processos enviados pela Secretaria de Saúde do Estado ao Ministério da Saúde. A tecnologia foi desenvolvida pela Di2win, empresa sediada no Porto Digital, e já sustenta uma projeção de recuperação de aproximadamente R$ 780 milhões em pedidos já submetidos ao governo federal. A seguir, entenda como a ferramenta funciona, por que ela conseguiu multiplicar tanto o volume de solicitações e o que o estado pretende fazer com essa tecnologia daqui para a frente.

O que é a ferramenta AIRA e por que ela foi criada

O ressarcimento administrativo acontece quando Pernambuco é obrigado, por decisão judicial, a custear medicamentos, tratamentos ou procedimentos que, dentro da lógica de financiamento do SUS, deveriam ser bancados pela União. Depois de efetuar o pagamento, a Secretaria de Saúde do Estado precisa reunir documentos, preencher formulários específicos e encaminhar cada solicitação ao Ministério da Saúde para reaver o valor gasto. Esse processo, historicamente, exigia uma quantidade grande de trabalho manual, já que os documentos envolvidos incluem decisões judiciais conduzidas pela Procuradoria-Geral do Estado e pelo Tribunal de Justiça de Pernambuco, muitas vezes digitalizados ou até manuscritos. Segundo o diretor de Inteligência Artificial da SES-PE, Álvaro Pinheiro, quando a ferramenta entrou em funcionamento o estado acumulava cerca de R$ 1 bilhão em valores passíveis de ressarcimento, um volume que a estrutura manual de trabalho não conseguia processar na velocidade necessária.

Para resolver esse gargalo, a Secretaria de Saúde firmou parceria com a Di2win, empresa de tecnologia sediada no Porto Digital, que personalizou para o órgão uma solução batizada de AIRA. A ferramenta começou a operar em novembro de 2025, depois de um período de customização iniciado em junho daquele ano. Ela atua diretamente sobre os processos registrados no Sistema Eletrônico de Informações, cruzando informações vindas de decisões judiciais com os dados exigidos pelo Ministério da Saúde em cada formulário. O resultado, segundo o levantamento do portal Movimento Econômico, foi um salto expressivo no número de pedidos enviados mensalmente, o que já contribui diretamente para a projeção de recuperação financeira anunciada pelo governo estadual.

Como a tecnologia consegue elevar tanto o volume de pedidos

O funcionamento da AIRA combina duas tecnologias principais. A primeira é o Reconhecimento Inteligente de Caracteres, conhecido pela sigla ICR, que permite ao sistema ler arquivos digitalizados e até documentos manuscritos, transformando esse conteúdo em dados estruturados e organizados. A segunda é o uso de modelos de linguagem de grande escala, os chamados LLMs, responsáveis por interpretar textos e imagens dentro dos processos e preencher automaticamente os formulários exigidos pelo Ministério da Saúde. Segundo a Di2win, essa combinação permite à ferramenta alcançar 98% de precisão na extração das informações, um índice bem superior ao registrado por outras tecnologias avaliadas anteriormente pelo estado, que ficavam entre 70% e 80% de acerto.

Essa diferença de precisão importa porque o Ministério da Saúde analisa as solicitações conforme a ordem em que são apresentadas, o que faz da agilidade um fator determinante para que Pernambuco consiga recuperar os valores mais rapidamente. Ao reduzir o tempo necessário para preparar cada pedido e diminuir a chance de erros no preenchimento, a AIRA permitiu que a Secretaria de Saúde enviasse muito mais processos por mês sem aumentar proporcionalmente a equipe dedicada a essa tarefa. Segundo o diretor de Estratégia da Di2win, Yves Nogueira, a tecnologia pode ser aplicada a qualquer contexto em que haja necessidade de identificação e extração de dados de documentos digitalizados, o que sugere um potencial de uso que vai além do ressarcimento administrativo dentro da própria gestão pública.

Quais os próximos passos para a inteligência artificial na Saúde de Pernambuco

Depois dos resultados obtidos com os pedidos de ressarcimento, a Secretaria de Saúde de Pernambuco já avalia ampliar o uso da inteligência artificial para outras frentes internas. Uma das possibilidades em estudo é usar a mesma tecnologia de leitura e extração de dados para organizar informações de prontuários clínicos, alimentando a Rede Estadual de Dados em Saúde, plataforma que reúne informações de hospitais, unidades de média complexidade e serviços de atenção primária em todo o estado. Se confirmada, essa expansão poderia acelerar a organização e a integração de dados clínicos que hoje ficam espalhados entre diferentes unidades de saúde, um desafio comum a redes públicas de saúde de grande porte.

O direito ao ressarcimento em si está amparado por entendimentos do Supremo Tribunal Federal, segundo os quais um ente federativo que assume despesas atribuídas a outro pode solicitar compensação financeira. No caso de Pernambuco, os pedidos abrangem gastos com medicamentos não incorporados ao SUS, tratamentos oncológicos, procedimentos de média e alta complexidade e atendimentos ligados aos Protocolos Clínicos e Diretrizes Terapêuticas. Ainda assim, esse direito não gera devolução automática, já que cada solicitação depende da apresentação correta da documentação e da análise do Ministério da Saúde, o que reforça a importância de ferramentas como a AIRA para manter o fluxo de pedidos organizado e dentro do prazo.

O caso da AIRA mostra como uma solução de inteligência artificial desenvolvida dentro do Porto Digital pode gerar impacto direto no orçamento de uma secretaria estadual, ajudando Pernambuco a reaver valores que, de outra forma, poderiam ficar represados por anos em meio à burocracia documental. Para o cidadão, o benefício aparece de forma indireta, já que recursos recuperados junto à União tendem a reforçar o caixa disponível para investimentos em saúde pública. A expectativa agora é acompanhar se a Secretaria de Saúde vai de fato expandir o uso dessa tecnologia para outras áreas, como a organização de prontuários clínicos, e se outros estados passarão a adotar soluções semelhantes para lidar com o mesmo tipo de gargalo administrativo.

Fontes consultadas:
Movimento Econômico: https://movimentoeconomico.com.br/tecnologia/2026/07/16/ia-amplia-em-16-vezes-envio-de-pedidos-de-ressarcimento-da-saude-de-pernambuco/

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