Tecnologia

Recife opera única rede quântica urbana do Brasil e projeta expansão para 40 km

Pesquisadores da UFPE e UFRPE testam tecnologia de criptografia inviolável desde 2023, com nova fase prevista para incorporar o Porto Digital ao projeto.

Pernambuco se tornou o único estado brasileiro a operar uma infraestrutura urbana de criptografia quântica em funcionamento real, um avanço que coloca o Recife em posição de destaque dentro de uma corrida tecnológica disputada globalmente. Pesquisadores da Universidade Federal de Pernambuco e da Universidade Federal Rural de Pernambuco mantêm, desde 2023, uma rede de comunicação quântica de sete quilômetros instalada sob o asfalto da capital pernambucana, com uma meta ambiciosa de expansão para quarenta quilômetros nos próximos anos, segundo informações do Ministério da Ciência, Tecnologia e Inovação.

O projeto, batizado de Rede Quântica Recife, usa fibras ópticas que já estavam instaladas na malha urbana da cidade, mas que permaneciam inativas, para transmitir chaves criptográficas consideradas fisicamente invioláveis. A tecnologia é vista pelo governo federal como estratégica para a proteção de sistemas de defesa e financeiros contra a próxima geração de ataques computacionais, incluindo aqueles baseados em computadores quânticos, que devem se tornar uma ameaça real aos sistemas de segurança digital usados atualmente. O que torna essa tecnologia tão relevante e por que o Recife conseguiu sair na frente em relação a outras iniciativas brasileiras?

Como funciona a tecnologia que está sendo testada no Recife

A explicação está no princípio da chamada Distribuição de Chaves Quânticas, conhecida pela sigla QKD. Diferente dos métodos tradicionais de criptografia, qualquer tentativa de interceptação das mensagens transmitidas pela rede quântica rompe instantaneamente a conexão, fazendo com que o sistema detecte o ataque e torne a informação ilegível para quem tentou acessá-la. Segundo os pesquisadores envolvidos no projeto, não existe poder computacional capaz de contornar esse mecanismo de segurança, nem mesmo os futuros computadores quânticos, cuja capacidade de processamento ameaça tornar obsoletos os sistemas convencionais de criptografia usados hoje por bancos, governos e forças armadas em todo o mundo.

A rede conecta seis pontos estratégicos da cidade, incluindo a UFRPE, a UFPE, o Instituto de Tecnologias Quânticas, conhecido como Quanta, além de centros de tecnologia da informação e de ciências exatas vinculados às universidades. A conexão entre esses nós foi viabilizada pelo Ponto de Presença da Rede Nacional de Ensino e Pesquisa em Pernambuco, que aproveitou cabos de fibra óptica já existentes, mas sem uso, para viabilizar o projeto sem a necessidade de obras de grande porte na infraestrutura urbana da cidade. Os resultados da iniciativa foram publicados no Brazilian Journal of Physics em dezembro de 2025, confirmando que a proteção quântica se mantém íntegra mesmo nas condições reais de uma metrópole, com interferências e perdas de sinal típicas de áreas urbanas densamente povoadas.

Recife na corrida global por tecnologias quânticas

O avanço pernambucano ocorre em um contexto de disputa internacional acirrada por essas tecnologias. A China já opera a maior rede quântica do mundo, com mais de 4.600 quilômetros de extensão, enquanto a União Europeia destina o equivalente a um bilhão de euros ao seu programa de tecnologias quânticas em um horizonte de dez anos. Nesse cenário, o Brasil aparece como participante do ciclo na condição de desenvolvedor, e não apenas de consumidor de tecnologia estrangeira, com o Recife posicionado como o único polo urbano nacional com uma rede quântica em operação real e validada cientificamente.

Outra iniciativa nacional semelhante, a Rede Rio Quântica, reúne instituições como o Centro Brasileiro de Pesquisas Físicas, a Universidade Federal Fluminense, a Universidade Federal do Rio de Janeiro, a PUC-Rio e o Instituto Militar de Engenharia, com investimento aproximado de sete milhões de reais. A principal diferença entre os dois projetos está no estágio de maturidade: enquanto a iniciativa carioca ainda desenvolve e testa seus protocolos em ambiente controlado, a rede pernambucana já opera sobre a infraestrutura real da cidade. O projeto recifense recebeu recursos de instituições como CNPq, Capes, Facepe, Fapesp, a agência de pesquisa naval dos Estados Unidos e a Finep, que aprovou o Instituto Quanta como Centro Temático com um aporte de quinze milhões de reais, além de premiar a iniciativa no Prêmio Finep de Inovação em 2025.

Próximos passos e o que a expansão significa para Pernambuco

A segunda fase do projeto prevê levar a rede quântica para quarenta quilômetros de extensão, incorporando o Porto Digital, o CESAR e a Universidade de Pernambuco ao ecossistema que hoje está concentrado nas universidades federais. Ainda não há prazo definido para a conclusão dessa etapa, mas a meta intermediária já tem data declarada: conectar à rede, até meados de 2026, uma memória atômica capaz de gerar sete fótons simultâneos para um computador quântico fotônico de dez qubits, equipamento que será usado para simular a dinâmica de moléculas e executar algoritmos de aprendizado de máquina.

Para o coordenador do projeto, professor Daniel Felinto, a integração entre a rede e o futuro computador quântico abre o que ele descreve como um novo horizonte de processamento de informação compartilhada, aproximando a iniciativa pernambucana do conceito de internet quântica, ainda em estágio experimental no mundo todo. Toda a estrutura do Instituto Quanta será instalada no ParqueTec da UFPE, no Recife, com expectativa de geração de empregos qualificados e fixação de conhecimento técnico na região, reforçando um movimento que já vinha sendo construído pelo Porto Digital ao longo dos últimos 25 anos como um dos principais polos de inovação do país.

A aposta dos pesquisadores e do governo federal é que o avanço da Rede Quântica Recife consolide o estado como referência nacional em tecnologias aplicadas à defesa, à indústria e à segurança digital, segmentos em expansão acelerada diante do crescimento de ataques cibernéticos cada vez mais sofisticados. Com a Fase 2 ainda sem data definida, o setor de tecnologia pernambucano segue de olho nos próximos avanços do projeto, que já coloca o Recife em uma posição de destaque dentro do mapa de inovação científica do Brasil.

Fontes: Movimento Econômico | Agência Brasil

Autor: Diego Rodríguez Velázquez

What's your reaction?

Excited
0
Happy
0
In Love
0
Not Sure
0
Silly
0

Você também pode gostar

Comments are closed.