Recife opera a única rede de comunicação quântica em funcionamento real no Brasil
Projeto da UFPE e UFRPE já conecta pontos da cidade por fibra óptica e prepara expansão para 40 quilômetros até 2027
Pernambuco se tornou o único estado brasileiro com uma infraestrutura urbana de comunicação quântica operando fora do ambiente controlado de laboratório. A chamada Rede Quântica Recife, conduzida por pesquisadores da Universidade Federal de Pernambuco (UFPE) e da Universidade Federal Rural de Pernambuco (UFRPE), já conecta pontos da capital usando fibras ópticas que fazem parte da malha urbana da cidade. A conquista traz uma dúvida natural para quem não acompanha o tema de perto: o que, na prática, essa tecnologia muda para a segurança digital do país, e por que Recife se tornou o palco desse avanço?
Como funciona a rede que já opera nas ruas do Recife
Pesquisadores da UFPE e da UFRPE operam uma rede de comunicação quântica de 7 quilômetros sob o asfalto do Recife desde 2023, com meta de expansão para 40 quilômetros, segundo o Ministério da Ciência, Tecnologia e Inovação. A experiência é considerada um marco porque não se limitou a testes de bancada: usa a estrutura de fibra óptica já instalada da Rede Ícone, mantida pela Rede Nacional de Ensino e Pesquisa (RNP), sujeita às variações e interferências do ambiente real, algo que não acontece em experimentos isolados de laboratório. Movimento Econômico
A tecnologia por trás do projeto permite transmitir chaves de criptografia protegidas pelas leis da física quântica. Na prática, isso significa que qualquer tentativa de interceptar a comunicação alteraria o próprio estado quântico da informação, tornando o ataque detectável de forma imediata. É esse princípio que torna a comunicação quântica atraente para setores considerados críticos, como energia, defesa, governo e sistema financeiro, áreas que lidam diariamente com dados sensíveis e que estariam entre os primeiros beneficiados por uma eventual adoção em escala da tecnologia. O projeto conecta três estações de pesquisa, instaladas nos departamentos de Física e de Eletrônica e Sistemas da UFPE e no Departamento de Física da UFRPE, todas equipadas de forma idêntica para garantir a consistência dos experimentos.
Por que a expansão para 40 quilômetros é considerada estratégica
O financiamento inicial do projeto veio de um repasse de R$ 2,99 milhões do Conselho Nacional de Desenvolvimento Científico e Tecnológico (CNPq), destinado a desenvolver equipamentos e protocolos que possam, no futuro, subsidiar uma estratégia nacional de comunicação quântica. Os resultados da pesquisa foram publicados na Brazilian Journal of Physics, uma validação importante para um campo que ainda é considerado experimental na maior parte do mundo.
O passo seguinte, já em planejamento, é ampliar o alcance da rede dos atuais 7 quilômetros para até 40 quilômetros, incorporando o ecossistema do Porto Digital e outras instituições de pesquisa e inovação da região metropolitana do Recife. Essa segunda fase deve incluir parceiros como o CESAR e a Universidade de Pernambuco (UPE), ampliando o alcance da tecnologia para além do ambiente puramente acadêmico. Para coordenar esse avanço, os pesquisadores da UFPE consolidaram o Instituto de Tecnologias Quânticas, batizado de Quanta, sediado no ParqueTec da universidade, reunindo especialistas de física, diferentes engenharias e computação sob a mesma estrutura. O trabalho já foi reconhecido com o Prêmio Finep de Inovação 2025 da Região Nordeste, na categoria de infraestrutura de pesquisa e desenvolvimento, um indicativo de que o projeto ganhou relevância também fora do meio acadêmico.
O que vem a seguir para o ecossistema de tecnologia quântica em Pernambuco
Antes mesmo de concluir a expansão para 40 quilômetros, o Instituto Quanta tem uma meta intermediária prevista para meados de 2026: conectar à rede uma memória atômica capaz de gerar sete fótons simultâneos, alimentando um computador quântico fotônico de 10 qubits. Segundo o coordenador do projeto, professor Daniel Felinto, da UFPE, essa integração entre rede e computador quântico representa um avanço que vai além da simples troca de chaves criptográficas, aproximando a iniciativa do conceito de internet quântica, em que o processamento de informação passa a ocorrer de forma compartilhada em rede.
O avanço de Pernambuco ocorre em um momento de disputa global por tecnologias quânticas, com a China operando hoje a maior rede do tipo no mundo, com mais de 4.600 quilômetros, e a União Europeia destinando 1 bilhão de euros ao setor na próxima década. Diante desse cenário internacional, o fato de o Brasil ter um projeto funcional e validado cientificamente coloca Recife em posição de destaque no debate nacional sobre soberania tecnológica e cibersegurança, um tema que deve ganhar ainda mais espaço conforme a expansão da rede avança e novos parceiros se somam ao projeto.








